No dia em que fui fazer essas fotos, um grupo de estudantes visitava a galeria. Ouvi seus comentários e fiquei feliz: até as crianças conseguiram extrair das enxadas algum significado. Assim, tenho a certeza de não oferecer ao público mais um rei nu...Não raro, acusam-me de ser excessivamente semiótico em minha produção poética. Pois bem: não se trata de imprimir ao trabalho um significado específico, de sugerir uma mensagem ou discurso. Essa inocência já perdi; sei que o sentido do trabalho, uma vez que ele esteja em circulação, foge ao meu controle. E gosto disso: na noite da abertura, uma amiga me disse que a enxada de pelúcia a fez pensar numa versão gay de Karl Marx - ora, essa leitura nem me passou pela cabeça quando concebia o trabalho, mas não obstante divertiu-me deveras.
Uma das coisas que aprendi nos últimos anos é que a potência da obra de arte não está no que o artista quis dizer (até mesmo porque essa intenção original, geralmente, é inacessível ao fruidor da obra), mas naquilo que ela me permite pensar (devo essa à Rosângela, minha orientadora). Uma de minhas queixas mais recorrentes acerca da arte contemporânea diz respeito à sua aridez: é preciso espremê-la com muita força para extrair algumas gotas de suco.
Acredito que essa aridez tenha origem num conceitualismo e abstração excessivos - e, claro, na esperteza de certos alfaiates sem escrúpulos, que não fazem mais do que jogar com a vaidade e inocência do público. Por isso evito tratar, em minha produção poética, de questões de cunho muito pessoal. Entendo que um trabalho que trate de minha subjetividade, história ou processos pessoais, por mais que signifique muito para mim e para aqueles que me conhecem bem, provavelmente parecerá árido para os outros - eles não têm acesso a meu universo interior. Assim, quando penso num trabalho para uma exposição, tento fazê-lo de modo que ele permita mais de um nível de leitura: quanto mais poliédrico, mais suculento.






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